A primeira coisa que eu (supostamente) aprendi na vida foi jogar xadrez.
Óbvio não estou contabilizando coisas como falar, comer, andar, etc.
O que eu sei é que aos três anos de idade aprendi e joguei xadrez com meu pai e “autografei” o tabuleiro de xadrez dele. Sim, o tabuleiro tinha o verso disponível para as assinaturas de quem nele jogou.
Tecnicamente, xadrez foi a primeira coisa que eu aprendi a jogar e a única coisa que meu pai me ensinou, o que é uma pena: eu teria me beneficiado muito dos conhecimentos dele sobre métrica e poesia.
https://www.youtube.com/watch?v=cYox5HFet84
De fato nossos pais não nos ensinam tudo o que precisamos para viver. Paradoxalmente, porém, acho que eu não preciso de mais nada além do xadrez.
Não me levem a mal: Bobby Fischer (salvo engano) já falava que “xadrez te deixa mais esperto para jogar xadrez”. Xadrez não é como a Vida e qualquer pessoa que tente te fazer acreditar nisso nunca jogou xadrez.
O Xadrez é um jogo de turnos, a Vida acontece tudo ao mesmo tempo. No Xadrez os recursos são finitos e as partidas não se comunicam, na Vida efeitos externos impactam, as derrotas se acumulam e as vitórias importam. No Xadrez você não pode subornar o Bispo, mentir para a Torre ou torturar o Cavalo.
Xadrez, porém, ensina algumas coisas muito específicas e muito pontuais que são a essência da Vida.
O Xadrez é um jogo de turnos, assim como a Vida.
Não, não me contradigo. Sei que afirmei que a Vida é tudo ao mesmo tempo. Entretanto, a Vida ser um jogo de turnos não significa que ela vai parar para você pensar na melhor decisão, resposta ou jogada. Não vai.
Na verdade, se demorar demais, cai o tempo, fim de jogo. Adversário ganha.
O tabuleiro existe e o adversário joga. E você joga com o adversário. Ação e Reação. Ataque e Defesa. Ataque e Contra-Ataque. Ataque e Ataque. O Xadrez é Diálogo, como a Vida. Você fala, o Mundo escuta, o Mundo fala, Você escuta.
Obviamente, você pode dizer que o Tabuleiro é explícito, as peças estão lá e as regras são escritas. A Vida não.
O que hoje está, amanhã não está mais, como um amor que era pouco e se acabou ou um anel que era vidro e se quebrou. No Xadrez existem regras e Juízes, na Vida regras são como promessas (feitas para serem quebradas) e não existe Justiça, existe Poder.
Eu te digo, porém, que o Mundo fala, nós que somos surdos. Como neanderthais, surpresos com o trovão depois do raio.
Quantas vezes o cheque-mate não arremata o final que se desenhou dez, quinze, vinte jogadas antes? Ou ainda, quantas vezes não nos surpreendemos quando alguém para diante do tabuleiro e diz “mate em quatro”?
Nada é imprevisível. Nós que somos por demais imprevidentes. Mas não é nossa culpa. Diante do tabuleiro, deixamos de lado trabalho, casa, amor, ódio, cachorro, boletos ou preocupações. Existe apenas o Xadrez.
Na Vida, diante do trabalho pensamos no amor, diante do amor pensamos no trabalho, quando tristes, pensamos na tristeza e na alegria ignoramos o mundo. Não separamos os adversários e misturamos tudo o tempo todo. Porque não existem adversários. Existe apenas Adversário. No Singular. O Universo.
É você sozinho contra o Mundo Inteiro, sempre.


